José Luiz Martins Carvalho

A saga dos dois irmãos gêmeos que entraram em litígio por causa da bênção de seu pai pelo direito de ser o filho primogênito é uma das histórias mais conhecidas da Bíblia. Até mesmo Machado de Assis se inspirou nela para escrever um de seus mais célebres romances. E isto se deve, certamente, porque ela revela muito sobre o espírito humano. E não somente em termos individuais, mas coletivos. Destarte, os mesmos princípios também podem ser aplicados na análise das correntes ideológicas e teológicas presentes na Filosofia Moderna e na Teologia Contemporânea. E, também aqui, encontraremos Esaú e Jacó digladiando-se na briga pela primogenitura…

A Teologia Contemporânea nasce de uma crise: a crise do modernismo logo após a Primeira Guerra Mundial. O modernismo marcou profundamente todos os campos do saber humano, inclusive a teologia. A escalada da ciência, o desenvolvimento da crítica histórica e a divinização da razão, características do espírito modernista, adentraram à teologia via dois movimentos: o iluminismo alemão e o empirismo inglês. O primeiro, deu à luz ao Liberalismo Teológico; o segundo, está na base do Fundamentalismo Teológico. Ambos os movimentos, portanto, nada mais são que irmãos gêmeos sob a paternidade do modernismo!

O Liberalismo Teológico foi um movimento localizado no tempo e no espaço: séculos XVIII e XIX, na Europa. A principal alegação dos liberais era que a Revelação Divina não dependia de Cristo ou da Bíblia, mas eles admitiam outros meios de Revelação, chegando até a colocá-la como supérflua ao defender que o homem poderia chegar a Deus pelas vias da razão. Hoje, entretanto, no século XXI, o Liberalismo Teológico não existe mais… Ele foi devidamente rechaçado no início do século XX por um grupo de teólogos, capitaneados por Karl Barth, que influenciaram toda a produção teológica posterior e sepultaram o liberalismo. Sendo assim, ainda que possam até brotar aqui e ali um ou outro autor que defenda pressupostos similares aos do liberalismo, como movimento teológico ele não existe mais. Faz parte apenas da história da teologia.

Todavia, o Liberalismo ainda teve tempo de conhecer o seu irmão gêmeo. O Fundamentalismo Teológico foi uma reação nascida no Seminário de Princeton, entre alguns professores de origem presbiteriana, preocupados com os “perigos” do liberalismo teológico, da crítica bíblica, do socialismo e da ciência empírica que estavam adentrando em sua denominação. Mais tarde, os batistas e outros grupos evangélicos aderidam ao movimento. Os dois documentos fundamentais do movimento são os livros The Fundamentals, publicado em 1917, editado por Lyman e Milton Stwart, que define os cinco pilares básicos do fundamentalismo: 1) A inerrância das Escrituras, 2) A divindade de Jesus, 3) O nascimento virginal, 4) A morte vicária de Cristo, 5) A ressurreição física e a volta de Jesus; e “Christianity and Liberalism”, de J. Gresham Machen, de 1923, que é um grito contra o que ele entendia ser apostasia dentro da Igreja Presbiteriana nos EUA, grito este que levou ao cisma e à criação da Orthodox Presbyterian Church poucos anos depois.

Diferentemente do Liberalismo, o Fundamentalismo foi sendo reavivado de tempos em tempos até hoje por diversos grupos religiosos, liderados por gente como Cornelius Van Til e Francis Schaeffer, entre outros pensadores que admiravam o movimento e o tentavam reproduzir em suas épocas. Por influência de alguns desses pensadores, o Fundamentalismo Teológico nos EUA foi tomando conotações políticas, dando origem à chamada direita religiosa que deu sustentação “mitológica” à Guerra Fria nos anos 60/70 e, no passado recente, dava sustentação político-ideológica ao governo de George W. Bush. Dos EUA, ele também migrou para outras regiões sobre sua influência, como o Brasil.

O Fundamentalismo Teológico é um movimento historicamente condicionado. Ele é uma reação a um determinado tipo de pensamento e em uma determinada época. Por isso, suas afirmações são condicionadas como oposição ao tipo de pensamento que eles desejavam combater, mormente, o liberalismo teológico. Com a derrota do liberalismo a partir do trabalho dos teólogos dialéticos (ou neo-ortodoxos) europeus, estas definições do fundamentalismo perderam o seu sentido, ficaram esvaziadas. Além disso, em muitas delas, há também o erro da assimilação dos paradigmas de pensamento do modernismo.

A questão da inerrância das Escrituras é o melhor exemplo. Para se contrapor às afirmações da alta crítica bíblica de que a Bíblia contém erros históricos/geográficos e contradições, o Fundamentalismo advogou que ela era inerrante. O problema é que tipo de inerrância se tem em mente. Para o fundamentalista, pelo seu condicionamento histórico e epistemológico, ser inerrante é passar pelo crivo da razão e da ciência. No entanto, para os Reformadores, especialmente para Calvino, a Bíblia é Palavra de Deus em palavra de homem. Por isso, ela é infalível no que se refere à auto-revelação de Deus, mas sujeita a equívocos e imprecisões no que se refere à participação humana. Aqui, Calvino usa o conceito de attemperatio (acomodação, adaptação) para falar dessa interação entre a revelação divina e a linguagem humana: “Deus adapta-se a nosso modo comum de falar por causa de nossa ignorância e, às vezes, por assim dizer, até gagueja” (Calvin’s New Testament Commentaries, vol. 5, p. 226). A inerrância das Escrituras, portanto, se refere ao seu conteúdo divino e seu sentido teológico, mas não à sua linguagem.

Outro exemplo importante e relacionado ao anterior é quanto à historicidade da Ressurreição. O conceito de “historicidade” mudou completamente a partir o Iluminismo. Após Lessing, Kant, Hegel e outros pensadores do período, aquilo que advoga para si a categoria de “fato histórico” deve ser empiricamente observável, ou seja, deve ser, de alguma forma, possível de se provar objetivamente. O que é diametralmente oposto à atitude que no cristianismo é biblicamente chamada de Fé: a “certeza da esperança” e a “convicção do invisível” (cf. Hb 11.1). A Igreja sempre confessou que Jesus é real e que por sua vida, morte e ressurreição os cristãos recebem a plena revelação de Deus. Porém, estas coisas não são possíveis de ser provadas cientificamente e nem devem ser, uma vez que precisam ser recebidade por fé. Este foi o erro do Liberalismo Teológico e é o mesmo erro reproduzido pelo Fundamentalismo, a saber: a assimilação do paradigma ideológico da modernidade acerca dos “fatos históricos” tentando aplicá-los à Bíblia. Os dois movimentos “amaram o presente século” (cf. 2Tm 4.10). Por isso, ambos se corromperam em deturpações do verdadeiro Evangelho!

Liberalismo e Fundamentalismo são, portanto, como irmãos gêmeos que brigaram pela primogenitura, mas exatamente porque os dois têm os mesmos interesses. São Esaú e Jacó na Teologia Contemporânea! Nenhum dos dois sabe ler a Bíblia. Os dois a leem com as mesmas lentes modernistas, as quais filtram tudo pelo historicismo e o cientificismo. Os liberais com intuito colocar a Bíblia sob o crivo da razão crítica, o segundo com o desejo de dar validade e credibilidade ao relato bíblico através da comprovação histórica e científica dos fatos. Ambos se apegam à fria letra para terem segurança de alguma coisa nas Sagradas Escrituras. Isso é estar preso ao modernismo!

Ao contrário, os cristãos históricos, mormente os de tradição reformada, fazem coro com o reformador João Calvino que aos que exigiam “provas racionais” de que Moisés e os profetas eram inspirados, “respondo, não obstante, que o testemunho do Espírito é superior a toda razão. Ora, assim como só Deus é idônea testemunha de Si [Mesmo] em Sua Palavra, também assim a Palavra não logrará fé nos corações humanos antes que seja [neles] selada pelo testemunho interior do Espírito. Portanto, é necessário que penetre em nosso coração o mesmo Espírito que falou pela boca dos profetas, para que [nos] persuada de que [eles] hão proclamado fielmente o que lhes fora divinamente ordenado” (Institutas I, III, 4).

Por isso, estamos plenamente de acordo com o princípio reformado de que a capacidade de reconhecer a Bíblia como Palavra de Deus não provém de estudos históricos ou arqueológicos, mas pela ação do Espírito que outorga a fé, conforme define o mestre genebrino: “procedem insipentemente, porém, aqueles que desejam que se prove aos infiéis que a Escritura é Palavra de Deus, pois que, a não ser pela fé, [isso] se não pode conhecer” (Institutas I, VIII, 13).

Mas, afinal, de quem é a primogenitura?

Não nos importa! O que nos importa é que nós, cristãos reformados, não fazemos parte desta família. É necessário, então, que o labor teológico contemporâneo ultrapasse definitivamente esta questão, buscando na identidade histórica do cristianismo e não no espírito modernista e secular (seja de viés liberal ou fundamentalista) as bases e paradigmas de sua reflexão.